QUEM O SENHOR PODE CHAMAR? - Rainey Marinho
09/05/2026Em Pinheiros, no café do hotel, ele aparecia todos os dias de manhã. Um senhor oriental, de cueca box, camisa, o pescoço levemente voltado para a esquerda — e, posso estar fazendo um julgamento apressado, aparentemente não estava bem de cognição. Os colaboradores cuidavam dele. Ajeitavam, recolhiam o prato que ele derrubava, repunham o que ele quebrava.
Quem me conhece sabe que eu gosto de olhar o entorno, gosto de olhar o que acontece à minha volta. Tive a curiosidade. Perguntei a uma das moças da entrada — daquelas que anotavam o número dos quartos — qual era o problema dele. Ela me disse: ele não tem filhos, não tem esposa, não tem ninguém. Os parentes ficaram no Oriente, e ele morava sozinho. Em determinado momento da vida pegou uma boa parte do dinheiro e entregou ao hotel, para ficar ali de forma indefinida. E lá estava ele, esperando que o ocaso da vida o alcançasse rapidamente — antes que o dinheiro acabasse.
Eu estava em São Paulo, na semana, num trabalho árduo de construção profissional junto com colegas. Sou cartorário em Maceió. Aproveitei o último dia para fazer um check-up nos olhos. É preciso. Já fiz cirurgia refrativa, já fiz algumas coisas no olho, e no exame de rotina foi necessário aprofundar a investigação.
Na quinta-feira fui à clínica. Uma clínica muito boa. Graças a Deus por me permitir fazer esses exames. E lá tinha um senhor meio nórdico, alto, bem mais que setenta anos, já puxando os pezinhos. Quando eu entrava para o exame, ele entrava na sequência, atrás de mim. Quando eu entrava de novo, ele de novo atrás de mim. Fazendo também o mesmo check-up ocular tão peculiar.
Ao final, depois de seis horas de exames, ficamos os dois esperando o grande mestre nos atender para a consulta. Ele esperou comigo na sala de estar. E foi chamado primeiro — o que achei curioso, porque até então eu vinha indo na frente.
Logo depois ele deixou o consultório, e enquanto o médico me esperava, a atendente não me levou à sala. Foi falar com ele: o doutor disse que o senhor não pode mais sair daqui, tem que se operar agora, urgente, senão o senhor perde a visão. Quem o senhor pode chamar? Quem pode vir te acompanhar? Ele respondeu: minha filha, eu não tenho esposa — já faleceu, infelizmente. Tenho apenas um filho, que mora no norte da Europa. Não tenho amigos. A única pessoa que conheço, e com quem falo todos os dias, é o porteiro do prédio, nordestino, que me atende muito bem. Não tenho ninguém. Ela disse: mas o senhor não pode ficar sozinho numa cirurgia de vista. E ele: não existe outro jeito.
Enquanto ele falava isso, eu entrei para a minha consulta.
Na sexta-feira voltei para casa. No avião, chovia muito. O piloto baixou, não teve condição de pouso, arremeteu. Rodamos ao redor do aeroporto, não sei por quanto tempo. E pousamos bem. Pousamos bem.
Cheguei em casa e fiquei observando o quanto nós somos privilegiados, às vezes. Às vezes nós somos tão ricos porque temos seres humanos que nos cuidam.
E às vezes tem gente que é tão pobre que só tem dinheiro.
Isso ficou na minha cabeça, marcando de ontem para hoje. A gente espera. Pede a Deus e aos anjos da guarda que o esforço de todos os dias seja recompensado pelo entendimento dele — do que é bom, do que é certo, do que é justo, do que é amor puro, sem nenhuma concepção de troca. Que as pessoas com quem a gente convive entendam e valorizem esse amor e essa dedicação.
Que Deus nos guarde dos ocasos da vida. Que Deus nos guarde e proteja dos esquecimentos. Que Deus nos guarde e proteja de nós mesmos.
