Os nós, as cordas e a base — lições do Governador Lamenha Filho - Rainey Marinho
12/02/2026Eu tinha uns doze anos, em 1980, quando vi o ex-governador de Alagoas, Lamenha Filho, entrar no escritório do meu pai na Central Açucareira Santo Antônio.
Meu pai trabalhava ali havia muito tempo. Era funcionário de usina: gente simples, de rotina puxada, que chegava cedo e saía tarde. Lamenha já estava afastado da vida pública, mas aparecia por lá porque tinha uma fazenda que fornecia cana para a usina. Não chegou com pose. Chegou como quem já conhecia aquele chão, como quem ainda tinha o hábito de conversar olhando no olho.
Eu fiquei num canto, quieto, só ouvindo.
Em algum momento, ele virou a cabeça na minha direção — ou talvez tenha falado com meu pai e eu me meti na conversa com os olhos. A frase veio seca, do jeito que só adulto seguro de si fala com menino:
“Presta atenção, Rainor: abre os ouvidos.”
Aquilo me pegou.
E, a partir dali, ele explicou a política de um jeito que eu nunca esqueci: disse que política é a arte de encontrar os nós certos nas cordas soltas.
Falou como quem amarra coisa todo dia. Disse que há nós que apertam e aguentam o tempo. Outros são só de ocasião: seguram um pouco e depois afrouxam. Que tem corda de algodão, que aceita o aperto e fica; e tem corda de náilon, que escorrega bem na hora em que você precisa que ela segure. E tem corda que nem é corda direito — não tem substância — e vai estourar, por mais habilidosa que seja a mão.
Mas ele também deixou claro, sem rodeio: ninguém, absolutamente ninguém, faz política de verdade se recusar a tentar amarrar esses nós.
Às vezes a gente sabe que aquele nó não vai durar. Às vezes sabe que aquele laço não foi feito pra vida inteira. Porque, na política, o que une as pessoas é convergência de interesses — inclusive entre opostos. E interesse, ele dizia, não é linha reta nem promessa eterna. Hoje aponta pra um lado; amanhã, por conveniência ou por necessidade, muda de direção.
Aí veio a pergunta que ele mesmo respondeu, como quem está ensinando uma regra simples:
“O que une politicamente as pessoas?”
Primeiro, amizade sincera e lealdade sincera. E depois, uma coisa que muita gente despreza: dar às pessoas um espaço real de fala. Mesmo quando você acha que aquela fala não vai construir nada, deixe existir. As pessoas precisam falar. E político que só fala com a casa-grande, ele dizia, vai ficando surdo pro que importa.
Porque o que importa, no fim, é a base.
E quando ele falava “base”, não era palavra bonita de palanque. Era chão. Era gente. Era quem sustenta a legitimidade de qualquer um que queira liderar: o povo que cobra, que apoia, que se decepciona, que se afasta.
As ações, dizia ele, têm que voltar pra base. Não pra gesto de vitrine, não pra vaidade, não pra ato principesco que rende foto. A base é tudo. E o trabalho cotidiano, se for honesto, precisa refletir o que a base deseja e anseia. É um trabalho de atenção e paciência: ágil na percepção, paciente na construção, meticuloso na execução.
E então ele falou a frase mais dura da conversa, a que eu carrego como aviso até hoje:
“Não ouvir é o pior pecado.”
Pior do que não atender. Porque não atender, às vezes, é falta de condição, falta de tempo, falta de caminho. Mas não ouvir é escolha. É a mudez política se formando, degrau por degrau, até aquele palanque alto em que a pessoa fala sozinha — e ali começa a sepultura do futuro.
Eu devo muito a Lamenha Filho. Não porque tenha sido um discurso longo, nem porque tenha sido uma aula formal. Foi uma conversa de escritório de usina, com papel, cheiro de trabalho e vida real rodando do lado de fora. Mas foi ali que eu entendi, ainda menino, uma coisa simples:
trabalho sério, entrega de verdade e ouvido aberto é o que dá legitimidade a qualquer carreira na área social — seja eletiva e política, seja eletiva e profissional, seja associativa, seja a de síndico de um prédio comum, seja a de membro do Terço dos Homens, ou qualquer outra coisa que valha a pena ser vivida com propósito.
Por isso sou tão agradecido àquela tarde.
Ela me abriu os olhos para uma verdade que não envelhece: sem ouvidos, sem ação e sem coragem, muitas vezes é melhor ficar em casa.
*Para você meu Pai.
