O Totó - Rainey Marinho

31/08/2026

E o Totó nasceu. Numa ninhada de irmãs — quase sete, nunca contei direito — e ele sozinho no meio.

Veio diferente e não souberam dizer de quê. Não corria pra tomar lugar, não empurrava, não brigava pelo melhor lado da mãe. Ficava. E ficando estava inteiro, que era o que ninguém entendia.

 

O mundo não foi justo com ele. O mundo tem pressa.
 

Chamavam de estranho. Sem vontade, sem querer, sem potência. Eu ouvia e não discutia, porque com quem já mediu não se discute. Chega, olha três segundos e sabe o que o bicho vale. Mede pelo que aprendeu a medir — corrida, latido, gracinha no colo. Nada disso o Totó tinha. Logo, não tinha nada.

 

Falta de potência quase sempre é falta de olho. Isso eu só fui pensar depois, e ainda não sei se está certo.

Porque potência não é uma só. A garbosa tinha a dela: chegava primeiro, ocupava e mandava, e a gente achava graça — graça é o que a gente acha do que se parece com a gente. O Totó tinha outra. Continuar sendo aquilo. Sem virar outro, sem melhorar pra agradar. Duvido que custe menos que correr.

 

Os timbres eu conhecia todos. Pra quem passava no portão era tudo o mesmo choro, e eu de olho fechado sabia qual era qual. O do Totó vinha depois dos outros. Mais fino, mais curto, como quem pede desculpa por estar pedindo.

 

Se me obrigassem a dizer o que é amar, era isso. Separar os timbres. Quem não ama ouve ninhada — ouve o conjunto, o barulho, a caixa no canto da cozinha.

 

E não se ama todo mundo do mesmo jeito. Prometer isso é não ter prestado atenção em ninguém. A garbosa queria que eu saísse da frente. O Totó queria que eu ficasse. Se eu tivesse feito com ela o que fiz com ele, ela mordia minha mão. Se tivesse feito com ele o que fiz com ela, ele passava a vida sozinho achando que estava tudo bem. A força que se gasta é outra em cada um, e a conta nunca fecha igual duas vezes. Eu ainda erro.

 

Tem uma fila que ninguém escreveu e todo mundo obedece. Primeiro os que devolvem: o que responde, o que agrada, o que dá gosto de mostrar pra visita. O que mais precisa fica no fim, porque dá trabalho e não devolve nada que se veja. E a fila parece natural.

 

Quantas vezes eu cheguei numa casa e fui direto no mais bonito?

 

Se amor fosse por retorno, o Totó morria sem colo — e morria achando justo.
 

Amar a ninhada inteira é o que faz da gente filho de Deus.

 

Eu não amei todos por igual. Tentei.