O resto do todo - Rainey Marinho

07/09/2026

 



Ele disse que a vida é uma luta. Disse mexendo o café, sem olhar pra mim, do jeito que se diz uma coisa que já se disse muitas vezes. Depois disse que o pior é o sufoco de ter que se reinventar toda hora.

 

Eu disse que o resto do todo é muito.

 

Ele parou a colher. Perguntou o que era isso. Eu não soube explicar. Ainda não sei. Só sei que saiu na hora e que era verdade, e que as duas coisas nem sempre vêm juntas.

 

Ficamos calados. A moça do balcão passou um pano na mesa do lado. Um menino de uniforme entrou, comprou dois pães, saiu correndo porque o ônibus estava dobrando a esquina. O ventilador do teto fazia aquele barulho de ventilador velho, tec, tec, e ninguém mandava consertar porque todo mundo já tinha se acostumado. Na rua, um homem descarregava caixas de uma Kombi, uma por uma, e assobiava.

 

Meu amigo continuou falando. O trabalho, o chefe novo, o curso que mandaram fazer, o filho que não liga, o joelho. Tudo verdade. Eu ouvi tudo.

 

Mas enquanto ele falava eu olhava o homem da Kombi. Já tinha descido umas trinta caixas. Assobiando. Não sei se a vida dele é luta. Deve ser.

 

Terminamos o café. Ele pagou, eu deixei. Na porta, o telefone dele tocou; era a mulher. Ele disse “tô indo, tô indo”, com uma voz que não era a voz de quem estava lutando. Era voz de quem ia pra casa.

 

Acho que era isso. O café, o menino, o homem da Kombi, a mulher que ligou. Tudo ali, em volta da luta.

 

Ele foi embora ainda sem entender o que eu quis dizer.

 

Eu também.

 

Rainey Barbosa Alves Marinhoé registrador e tabelião em Maceió/AL, presidente da Anoreg/AL, do ON-RTDPJ e do IRTDPJBrasil. Membro da Academia Maceioense de Letras e da Academia Alagoana de Cultura.