DANÇA SOBRE OS ESCOMBROS - Rainey Marinho

24/06/2026


 



Vi Zorba mais de dez vezes. Devia ser sinal de que aprendi alguma coisa. É o contrário. Cada vez que volto, descubro que entendi errado da vez anterior.

Comecei achando que era um filme sobre soltar-se. O grego ensina o inglês a dançar, e pronto, larga-se o peso, vive-se. Reparei depois que essa leitura era a minha cara. A cara de quem passou a vida lidando com papéis e chamou isso de viver. Zorba não dá receita de felicidade. Ele faz uma pergunta que o letrado não sabe responder: por que os moços morrem? E o homem dos livros fica mudo. De que serviram, então, os livros?

Voltei ao filme por causa de uma colega. Ela postou a cena da dança no Instagram. Só a cena, sem uma palavra. Não sei o que ela quis dizer com aquilo. Talvez nada. Mas foi o que me pegou — porque é assim que ele faz: na hora que importa, larga a explicação e dança. Quem precisava de legenda ali era eu.

Porque o filme não é doce. A mesma aldeia que dança também apedreja. A viúva tem a garganta cortada na praça. A velha cortesã é saqueada enquanto agoniza. Quem transforma Zorba em cartão-postal não viu o filme — viu a propaganda dele. A força que põe as nossas aldeias para dançar é também a que as torna cruéis.

E aí vem a cena que carrega tudo — a que a colega escolheu. O teleférico desaba. O empreendimento, o cálculo, a madeira que desceria a montanha, a festa de inauguração — tudo no chão, de uma vez. Fracasso limpo, sem atenuante. O que o inglês pede ao grego diante das ruínas não é uma explicação. É que lhe ensine a dançar. Ali.

Demorei dez sessões para entender que essa é a lição, e que ela não consola. Não promete que o esforço será recompensado. Não diz que tudo tem um sentido. Diz outra coisa, mais dura: o mundo não responde, e mesmo assim você dança.

Kazantzákis mandou gravar no próprio túmulo: nada espero, nada temo, sou livre. Levei tempo para sentir o peso disso. Não é frase de efeito. É a sentença de quem perseguiu Cristo, Buda e a revolução a vida toda e elegeu como mestre um mineiro iletrado que sabia dançar.

Por isso volto. Não para aprender a dançar — para lembrar que ainda não aprendi.

 

Rainey Barbosa Alves Marinho é registrador e tabelião em Maceió/AL, presidente da Anoreg/AL, do ON-RTDPJ e do IRTDPJBrasil. Membro da Academia Maceioense de Letras e da Academia Alagoana de Cultura.